Crescimento do PIB do agro não reflete melhora no campo, diz economista
O crescimento de 2% no PIB do agro, conforme divulgado nesta sexta-feira (29/5) pelo IBGE, não significa necessariamente uma melhora na rentabilidade dos produ...
O crescimento de 2% no PIB do agro, conforme divulgado nesta sexta-feira (29/5) pelo IBGE, não significa necessariamente uma melhora na rentabilidade dos produtores rurais. O economista Felippe Serigati, da FGV Agro, alerta que a última safra apresentou margens "desconfortáveis" para diversas cadeias produtivas. "Em termos de volume, a safra é grande. Mas isso não significa que todo mundo que está gerando esse PIB esteja numa situação confortável", afirma. O contexto em que muitos agricultores estão produzindo inclui um cenário de endividamento e custo de capital elevado, alerta o especialista. "Na realidade, sabemos que a safra 2025/26 está sendo produzida com margens bem desconfortáveis para diversas cadeias. Não é para todas, o café ainda está operando com uma situação confortável, o arroz deu uma melhorada, mas na média estamos operando com uma safra de margens mais estreitas." Segundo Serigati, os números vieram em linha com o que havia sido projetado pela FGV, que esperava um crescimento de 1,9%. O destaque para a soja, na avaliação do economista, ocorre não apenas por ser o principal produto das atividades agropecuárias do país, mas também porque o grão protagonizou uma forte expansão. "Estamos falando de uma safra de soja de 180 milhões de toneladas, de acordo com a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). Óbvio que essas 180 milhões de toneladas não foram colhidas no primeiro trimestre, uma parte disso ainda vai aparecer no segundo trimestre, mas é uma safra gigantesca", observa o especialista. O IBGE apontou, por outro lado, queda na estimativa anual de outros produtos agrícolas, como milho (-2,5%) e arroz (-10,6%). Segundo Serigati, parte dessa contração no milho se deve à expansão da área de soja. "Não é um problema, porque a nossa principal safra de milho está acontecendo agora, que é a segunda safra (safrinha)", relata. No caso do arroz, a retração deve ser analisada dentro de um contexto. "No ano passado tivemos uma safra muito grande de arroz, 12,8 milhões de toneladas, acima do que a gente consome no mercado interno. Nosso consumo é 10,5 milhões. Como havia um mercado sobreofertado de arroz, a gente não encontrou um excedente de exportação para esse arroz a mais. Isso fez com que o preço do arroz fosse lá para baixo", explica Serigati. A discrepância entre oferta e demanda fez com que muitos produtores de arroz operassem "no vermelho". "Naturalmente, aquele vermelho do ano passado fez com que se reduzisse a área plantada de arroz, e esse mercado está voltando a operar na sua normalidade", resume o economista. "Então, embora para o PIB isso seja um número negativo, quando a gente olha para a realidade do setor na verdade é uma boa notícia." Apesar do desempenho positivo do setor, Serigati considera equivocada a visão de que o agro "puxou" o crescimento do PIB. Isso porque o fato de o setor ter a maior taxa de crescimento não significa que ele teve a maior contribuição. "A dimensão do universo agro, em termos de volume do PIB ao qual ele responde, de forma direta, é menor do que o setor de serviços", justifica. Os números do PIB do primeiro trimestre ainda não demonstram os impactos do conflito no Oriente Médio sobre o agronegócio, segundo Serigati. A instabilidade no cenário geopolítico deve contribuir para a elevação nos preços dos insumos agrícolas, em especial dos fertilizantes. As questões climáticas, com a chegada do fenômeno El Niño, também preocupam o setor para a próxima safra. A FGV calcula que, em 2026, o PIB do agro terá retração de 0,9%. Para a economia brasileira, a projeção é de uma alta de 1,7%. Esses números já haviam sido calculado antes da projeção divulgada nesta sexta-feira.