‘Embrapa é modelo global, mas tem de manter investimentos para não recuar’
Que a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) revolucionou a agricultura brasileira é praticamente consenso no setor na e academia. Mas o que o ...
Que a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) revolucionou a agricultura brasileira é praticamente consenso no setor na e academia. Mas o que o doutor em economia e professor do Departamento de Economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), dos Estados Unidos, Jacob Moscona, sustenta, é que o modelo de pesquisa agrícola da estatal — investimento público, descentralização, desenvolvimento de tecnologias novas, e não adaptadas, para a realidade local — pode servir de inspiração para outras nações do mundo. Não só àquelas com condições similares às do Brasil, mas diferentes, como a China, que vem implementando projeto similar à da Embrapa. Moscona está no Brasil para participar, hoje, da 1 Conferência Internacional da Rede de Pesquisa em Produtividade & Sustentabilidade (Rede PP&S) — iniciativa apoiada pelo Instituto Itaúsa e sediada no Insper —, em São Paulo (SP). Ele falará sobre o artigo “Pesquisa e desenvolvimento públicos e o desenvolvimento econômico: a Embrapa e a revolução agrícola do Brasil”, sobre o qual o Valor escreveu em novembro do ano passado, assinado com os pesquisadores Ariel Akerman, do Banco Interamericano de Desenvolvimento, Heitor S. Pellegrina, da Universidade de Notre Dame, e Karthik Sastry, da Universidade de Princeton. O grupo mergulhou em dados de cinco décadas da empresa e, contrariando o senso comum até então, identificou que o investimento público nos mais de 40 laboratórios da Embrapa trouxe retorno alto: aumento da produtividade agrícola do Brasil em 110% e, para cada US$ 1 investido, ao menos US$ 17 em produção. A taxa é superior à obtida nos EUA, conforme estudos anteriores citados no artigo, e poderia ser maior, pois desconsidera potenciais benefícios na América do Sul e África. Leia também Participação da Embrapa no PIB agropecuário chegou a 16% em 2025 Guilherme Coelho assume presidência do Conselho de Administração da Embrapa “Creio que muitos economistas teriam imaginado um retorno baixo, supondo que tais nações não têm o mesmo investimento e tecnologia de ponta de países ricos”, disse Moscona em entrevista ao Valor. “Nesses países há muitas áreas ignoradas pelo ecossistema de inovação no mundo. Os retornos foram altos porque a Embrapa trabalhou em frentes não estudadas nos EUA e na Europa.” O pesquisador de 31 anos vê similaridades entre a estrutura de pesquisa agrícola brasileira e a do seu país, ainda que lá não tenha sido organizada por uma estatal. Uma delas, disse, é o foco no desenvolvimento de tecnologias novas, e não na aplicação do que vem de fora. Além disso, assim como a Embrapa, que espalhou laboratórios em áreas com características diversas no Brasil, o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) fez algo parecido, observou, com estações experimentais e faculdades em concessões de terras. “Poucos foram os países, no estágio de desenvolvimento do Brasil em 1973, que decidiram construir laboratórios em várias regiões, formar doutores e colocá-los lá para gerar inovação”, afirmou. “O USDA emprega cerca de 2 mil cientistas com doutorado e a Embrapa também. É praticamente a mesma capacidade de P&D, o que acho incrível”, acrescentou. Na visão de Moscona, a Embrapa pode ser um modelo global de pesquisa agrícola pública, válido para outras nações em desenvolvimento ou fora do Ocidente. A China, que busca produzir mais, vem adotando um modelo de pesquisa semelhante ao da Embrapa. Segundo ele, o governo chinês enviou cientistas para diferentes partes do país para fazer pesquisa e em colaboração com agricultores. “É um programa que se parece muito com a Embrapa, em um país, a China, que, assim como o Brasil, é grande, ecologicamente diverso, e com um potencial agrícola ainda inexplorado devido à falta de tecnologia”, disse. Para países da África, dadas as condições climáticas semelhantes às do Brasil, a transferência de tecnologias seria uma saída mais vantajosa do que desenvolver sistemas próprios, afirmou. Outras nações pequenas, com características distintas do Brasil e para as quais criar um sistema individual também seria custoso, poderiam implantar entidade semelhante à Embrapa. “Há potencial enorme de aprender com a forma como as coisas aconteceram no Brasil. Pode haver retornos grandes em criar uma Embrapa em um lugar ecologicamente diferente do Brasil.” Sobre o orçamento da Embrapa, que sofreu cortes nos últimos anos, Moscona afirmou que há “riscos reais” em reduzir investimentos em P&D na agricultura. “Em muitos casos, isso significa que as coisas podem piorar muito. Para manter os benefícios atuais, a Embrapa precisa manter os investimentos atuais”, disse, citando a necessidade de desenvolver formas de lidar com novos problemas, como mudanças climáticas. Mesmo enaltecendo os “sucessos do passado”, Moscona avalia que a Embrapa precisa se adaptar às transformações do mundo. “Fazer tudo exatamente como nas últimas décadas seria receita para se tornar cada vez menos relevante”, disse. Para ele, a estatal deve seguir concentrada onde tem vantagem comparativa, ou seja, projetos de longo prazo que o setor privado “ignora ou deixa de lado”. Mas também preservar aspectos de seu “DNA”, como a descentralização. Moscona não pretende parar de pesquisar sobre o Brasil. Além de um artigo recente sobre mudanças climáticas e desmatamento, ele tem pesquisado inovação, incluindo agrícola, relação público-privada e pesquisa universitária no país.