Entenda por que tantos argentinos estão vindo ao Brasil para trabalhar na colheita da uva

A Serra Gaúcha, uma das mais importantes áreas produtoras de uvas e vinhos do Brasil, é conhecida por manter tradições das famílias de imigrantes italiano...

Entenda por que tantos argentinos estão vindo ao Brasil para trabalhar na colheita da uva
Entenda por que tantos argentinos estão vindo ao Brasil para trabalhar na colheita da uva (Foto: Reprodução)

A Serra Gaúcha, uma das mais importantes áreas produtoras de uvas e vinhos do Brasil, é conhecida por manter tradições das famílias de imigrantes italianos que povoaram a região. No entanto, novos sotaques estão cada vez mais presentes em meio aos parreirais. A presença de trabalhadores argentinos na colheita da uva é crescente, em meio à falta de mão de obra brasileira e crise econômica do setor agrícola do país vizinho. Segundo o Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis), cerca de 50% dos 9 mil safristas que fazem a colheita da uva na Serra Gaúcha são oriundos da Argentina. “A presença dos argentinos vem aumentando muito nos últimos anos, por razões econômicas. Com uma diária de R$ 180 a R$ 200, eles conseguem um ganho que não encontram lá”, explica Luciano Rebelatto, presidente do Consevitis. Leia também: Estudo de solos ajuda a melhorar produção de uvas na Serra Gaúcha Favorecida pelo frio, Serra Gaúcha deve colher uvas mais doces e em maior volume O principal lugar de origem dos safristas argentinos é a província de Misiones, que faz fronteira com o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Em janeiro e fevereiro, cerca de 400 a 500 trabalhadores daquela província estava cruzando diariamente a balsa do rio Uruguai entre Alba Posse, em Missiones, e Porto Mauá, no Rio Grande do Sul, segundo relatos de veículos de imprensa argentinos. O objetivo: buscar trabalho na colheita de uva e maçã no Brasil. Uma das razões da crise no trabalho rural em Misiones foi a decisão do governo de Javier Milei de acabar com o preço mínimo para a erva-mate na Argentina, uma das culturas agrícolas mais importantes para os agricultores familiares da província. Antes, as cotações eram fixadas através do Instituto Nacional da Erva-Mate (INYM). Com a mudança, realizada no início do mandato de Milei, os preços da erva-mate despencaram, justamente em um momento em que a inflação e os custos de vida sobem no país vizinho. Para quem dependia dessa produção como renda, uma das alternativas é buscar trabalho no Brasil. “Aqui no Brasil, colhendo uva, ganho em um dia o equivalente a dois dias e meio de trabalho na Argentina”, afirma Juan Mereles, 45 anos, que está em sua segunda temporada na vindima gaúcha. No entanto, ele já vem para o Brasil há cinco anos como safrista, tendo trabalhado antes nas colheitas de maçã, fumo e cebola em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Mereles foi um dos pequenos produtores rurais que sofreu com a crise da erva-mate na Argentina. No município de San Pedro, em Misiones, Mereles possui uma área de 4,5 hectares da cultura. Para ele, o fim da política de preços mínimos foi um profundo golpe nas finanças. “Há dois anos atrás, a gente recebia 340 pesos (R$ 1,28, na cotação atual) pelo quilo da erva-mate. E hoje estão pagando 180 (R$ 0,68), enquanto os preços de todo o resto estão subindo por conta da inflação. Por isso que a gente tem que sair da Argentina para buscar outras alternativas”, afirma. Nesta safra, Mereles foi um dos 11 argentinos contratados pelo produtor Selmar Eduardo Corbellini, de Garibaldi (RS). Eles terminaram nesta semana a colheita de 17 hectares de uvas para produção de suco. Juan Mereles, de San Pedro de Misiones, trabalhou na colheita da uva em Garibaldi (RS) Selmar Corbellini/Arquivo pessoal Este foi o terceiro ano que o viticultor emprega safristas do país vizinho, uma escolha que não se arrepende. “Tenho um pouco mais de trabalho para fazer a legalização deles, mas são muito esforçados e tem experiência com a lida do campo”, afirma. Outro argentino de San Pedro empregado por Corbellini na colheita da uva foi Cláudio Antunes, 33 anos. Em Misiones, ele trabalhava na colheita da erva-mate e do fumo, mas a baixa rentabilidade com a crise de preços e a inflação o incentivaram a buscar trabalho fora do país. “Temos muito o que agradecer ao Brasil por termos trabalho aqui e permitir que a gente possa ganhar um pouco melhor”, comenta. Antunes já estava acertando com seu contratador em Garibaldi para ser empregado novamente em algumas semanas, para fazer o trabalho de poda dos parreirais. Falta de mão de obra Um dos principais motivos destacados pelos produtores de uva para a contratação de estrangeiros é a dificuldade de encontrar mão de obra para o setor no Brasil. O presidente do Consevitis lembra que, historicamente, a colheita era feitas pelas próprias famílias produtoras, com ajuda de vizinhos, em regime de mutirão. Com o a migração rural, o envelhecimento da população do campo e uma concentração de propriedades, a contratação de safristas começou a avançar. “Até uns dez anos atrás, essa mão de obra era, na maioria de pequenos agricultores de outras regiões do Sul do Brasil, que aproveitavam intervalos na produção de grãos para trabalhar na uva. Mas essas áreas também passaram por encolhimento da população rural, e daí começaram a vir pessoas de outros Estados mais distantes”, lembra Rebelatto. O setor começou a dependender de atravessadores, que forneciam mão de obra aos produtores, muitas vezes de maneira informal. Essa situação acabou resultando em uma crise em fevereiro de 2023, quando mais de 200 trabalhadores da colheita da uva foram resgatados de condições análogas à escravidão em Bento Gonçalves (RS). A crise provocou uma virada de chave para a formalização e profissionalização no setor, afirma o presidente do Consevitis. “Todos entenderam a necessidade de mudança, que não se podia mais trabalhar sem uma segurança, tanto para o trabalhador quanto para o empregador. Hoje, praticamente todos os trabalhadores safristas são formalizados”, afirma. No entanto, o aumento da formalização também criou desafios para encontrar mão de obra, segundo Rebelatto. “Muitos possíveis trabalhadores brasileiros têm alguma forma de auxílio governamental, então eles têm muito medo de perder esse valor que eles recebem mensalmente no momento da formalização, e até recusando serviço. Com isso, a presença de estrangeiros e imigrantes vem aumentando”, comenta o dirigente do Consevitis. Cláudio Antunes, trabalhador rural de San Pedro de Misiones Selmar Corbellini/Arquivo pessoal Para Corbellini, as mudanças realizadas a partir de 2023 implicaram em maior responsabilidade com os safristas. Antes a gente apenas pagava para um atravessador, que se responsabilizada por tudo, transporte, hospedagem, alimentação, equipamento. Os trabalhadores não paravam na propriedade. Agora, alojamos eles aqui, onde têm dormitório, alimentação, fornecementos os equipamentos de proteção (EPIs) e contratamos como funcionários safristas”, destaca o produtor. Os sindicatos rurais e de trabalhadores rurais da região ajudam os produtores a fazer os contratos de trabalho e a legalizar os trabalhadores estrangeiros. “Fazemos a documentação, principalmente o CPF, os contratos de trabalho, lançamos no E-Social (sistema de informações trabalhistas do governo brasileiro), encaminhamos para a medicina do trabalho para os exames admissionais, e auxiliamos na recisão do contrato no momento que termina a safra, quando é emitida a guia de recolhimento de impostos”, explica Cedenir Postal, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bento Gonçalves.