'Futebol começa na fazenda': como é produzida a grama dos estádios da Copa do Mundo
Minutos finais da partida. Uma bola esticada pela esquerda busca Neymar, que chega uma fração de segundo antes do zagueiro e bate para o fundo do gol. É o He...
Minutos finais da partida. Uma bola esticada pela esquerda busca Neymar, que chega uma fração de segundo antes do zagueiro e bate para o fundo do gol. É o Hexa do Brasil, para delírio de milhões de pessoas país afora. A cena hipotética talvez não tivesse o mesmo desfecho, se a grama utilizada não fosse de última geração. A afirmação pode parecer exagerada, mas a velocidade do futebol moderno depende do tipo de grama e, portanto, também das fazendas. Gramados mais densos, uniformes e aparados contribuem para uma rolagem de bola mais rápida, maior precisão dos passes e respostas mais previsíveis ao toque dos atletas. Em uma partida decidida por centímetros ou milésimos, esses fatores podem alterar o rumo de um lance, de um jogo e até de uma Copa do Mundo. "O futebol começa na fazenda", resume Rodrigo Santos, coordenador do Centro de Gramados Esportivos da Itograss, empresa com sede em Tremembé (SP) que produz variedades usadas em três estádios da Copa do Mundo 2026. "Toda a tecnologia aplicada ao jogo vem da produção da grama, muito antes do jogo", diz. Mais verde A evolução dos gramados acompanhou a transformação do próprio futebol. Nas décadas de 1980 e 1990, muitos estádios no Brasil e no mundo ainda utilizavam gramas mais altas, menos densas e sistemas de construção relativamente simples. Segundo Santos, três pilares orientam o desenvolvimento dos gramados modernos, a segurança, a jogabilidade e a estética. Não é por acaso. Além do espetáculo transmitido para milhões de pessoas, os gramados sustentam atletas cujo valor de mercado pode superar centenas de milhões de euros. A superfície precisa evitar escorregões e irregularidades, oferecer comportamento uniforme da bola durante toda a partida e manter aparência impecável para transmissões em alta definição. "O jogo tem que ocorrer na velocidade adequada e o gramado precisa responder da mesma forma do primeiro ao último minuto", afirma. Os Estados Unidos lideram esse mercado. O país é hoje o principal centro mundial de pesquisa, desenvolvimento e comercialização de gramados esportivos. O Brasil aparece logo atrás como um dos maiores mercados globais do setor e também como referência técnica em regiões tropicais. Não por acaso, Rodrigo Santos e outros profissionais participam regularmente de eventos internacionais, projetos de grandes torneios e intercâmbios com universidades norte-americanas. O Estádio Akron, em Guadalajara, no México, foi o primeiro a receber oficialmente a grama NorthBridge para a Copa do Mundo de 2026 Itograss/Divulgação Leia também CT da Seleção, Granja Comary surgiu como fazenda de galinhas importadas; conheça a história Da Copa do Mundo ao agronegócio: conheça seis ex-jogadores que investem no campo Grama da Copa Na Copa do Mundo de 2026, que será disputada nos Estados Unidos, Canadá e México, duas variedades produzidas pela Itograss estarão presentes em sedes importantes. A Tifway 419 será utilizada no Hard Rock Stadium, em Miami, no qual o Brasil enfrenta a Escócia na fase de grupos. Já a North Bridge estará nos gramados do Arrowhead Stadium, em Kansas City, e Estádio Akron, em Guadalajara, no México. Dependendo da campanha, a seleção poderá encontrar mais gramados do tipo Bermudas, grupo ao qual pertencem a Tifway 419 e a North Bridge, nas fases eliminatórias. As finais, no entanto, serão disputados em gramados Bluegrass, bem como os jogos da primeira fase contra Marrocos, no MetLife Stadium em Nova York, e Haiti, no Lincoln Financial Field, na Filadélfia. Apesar de produzir variedades utilizadas na Copa, a Itograss não fornece grama para os estádios do torneio. "Não faria sentido levar a grama daqui para lá por questões de custo devido a questões fitossanitárias", diz Santos. Na Dinamarca, dois agricultores são responsáveis por parte da produção das sementes da Bluegrass, presente na maioria dos estádios da Copa nas cidades com clima mais frio. Os irmãos Johan e Michael Levy são a quarta geração de uma família de produtores e têm cerca de 800 hectares de área na região de Frederícia, no centro do país. Atualmente, produzem cevada, espinafre e a grama Poa pratensis, também chamada Kentucky bluegrass. As lavouras da gramínea na fazenda dos irmãos Levy ocupam cerca de 40 hectares, que produzem 40 toneladas dessas sementes por ano. Johan Levy produz, na Dinamarca, a variedade de grama Bluegrass, utilizada em gramados esportivos de alta performance Daniel Azevedo Duarte “A agricultura é a atividade de nossa família desde o século XIX. Variamos diversas culturas até chegar nas atuais. A grama especial é cultivada aqui desde 2018”, contou Johan. A variedade é uma das favoritas para os gramados e esteve presente em todos as Copas do Mundo Fifa, ao menos desde 2010. Além desses países, a espécie é usada em estádios na Inglaterra, Bélgica, Coreia do Sul, França, Holanda e outros em campeonatos nacionais. Grama é agro Embora pouco associada ao agronegócio, a produção de gramados esportivos segue todos os princípios de outras culturas agrícolas, com suas particularidades. O ciclo de produção pode durar entre 12 e 18 meses, muito mais que culturas como soja ou milho. O período é necessário para formar não apenas a parte aérea da planta, mas também um sistema radicular robusto capaz de suportar colheita, transporte, transplante e uso intensivo. Nesse período, a grama passa por preparo de solo, irrigação diária, adubação, podas frequentes, monitoramento fitossanitário e controle de plantas invasoras. "Grama gosta de sol, água e manejo. É agricultura o tempo todo", afirma Rodrigo, que também é agrônomo. A própria genética das variedades evoluiu. A Tifway 419, lançada há mais de quatro décadas, tornou-se uma das gramas esportivas mais utilizadas do mundo pela rusticidade e facilidade de manejo. Já a North Bridge representa uma nova geração de Bermudas, desenvolvida para regiões de transição climática dos Estados Unidos. Suas folhas mais finas e entrenós mais curtos permitem cortes mais baixos e gramados mais densos, favorecendo partidas mais rápidas. Área de produção de grama da Itograss em Tremembé (SP), uma das maiores estruturas do setor no Brasil Itograss/Divulgação Tecnologia Os avanços não se limitam às variedades. Sistemas de produção e instalação também mudaram. Uma das tecnologias mais recentes permite que um gramado seja instalado e utilizado em poucos dias, algo impensável há poucos anos. No Brasil, entretanto, os desafios permanecem enormes. Enquanto grandes clubes europeus realizam entre 30 e 35 partidas por ano em seus estádios, arenas brasileiras frequentemente recebem mais de 60 jogos anuais. O Maracanã, em algumas temporadas, ultrapassa essa marca com folga. O desgaste do gramado é proporcional. Mesmo assim, Rodrigo acredita que o país avançou significativamente desde a Copa de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. "A infraestrutura melhorou, novas tecnologias foram incorporadas e os padrões de qualidade se aproximaram dos observados nas principais ligas do mundo”, diz. Nos melhores estádios, equipes técnicas monitoram parâmetros como umidade do solo, densidade do gramado, dureza da superfície e altura de corte. Até a irrigação realizada minutos antes do apito inicial tem uma função específica. "Não é uma irrigação agronômica. É uma irrigação técnica para dar velocidade", explica Santos. Para o torcedor, quase tudo isso passa despercebido. “Cada jogo de alto nível tem gramados com anos de pesquisa genética, milhares de horas de manejo agrícola e uma cadeia produtiva sofisticada”, finaliza.