Mudança em inspeção de soja faz Cargill suspender exportação à China
Alterações no processo de inspeção de cargas de soja nos portos feitas pelo Ministério da Agricultura estão comprometendo os embarques do grão à China, ...
Alterações no processo de inspeção de cargas de soja nos portos feitas pelo Ministério da Agricultura estão comprometendo os embarques do grão à China, maior comprador do Brasil, no momento de maior intensidade das exportações brasileiras ao país. A Cargill, uma das maiores tradings de grãos do mundo, suspendeu operações de exportação de soja brasileira para China bem como as compras do grão para o destino depois que o governo brasileiro alterou a forma de fazer a inspeção fitossanitária das cargas a serem exportadas, segundo a Reuters, citando informação dada pelo presidente da empresa no Brasil e do Negócio Agrícola na América Latina, Paulo Sousa. O executivo disse que o Ministério vem adotando inspeção mais rigorosa, com amostragem própria das cargas, ao invés de usar amostra padrão que o mercado usa. A medida, segundo ele, seria uma resposta à uma solicitação do governo chinês, e estaria dificultando o cumprimento de normas bem como a obtenção de autorização para o embarque das cargas. Uma fonte do mercado ouvida pelo Valor e que pediu anonimato disse que, no fim do ano passado, fiscais chineses identificaram em um navio com soja do Brasil que chegou à China sementes de outros grãos misturadas na carga. A China teria então solicitado uma solução ao governo brasileiro, que adotou “tolerância zero” a impurezas em cargas de soja, como sementes de sorgo e outras plantas, na hora de emitir certificados fitossanitários para cargas que serão exportadas. Leia também Cargill inaugura fábrica de suplementação animal em Mato Grosso Com crise na oferta de gado, Cargill irá fechar indústria de carne nos EUA Cargill amplia frota para reforçar operação em hidrovias do Arco Norte A fonte, que atua na comercialização de grãos, diz que é inviável implementar tolerância zero nestes casos, dado o grande volume de grãos movimentado no país e as grandes distâncias percorridas por caminhões e outros meios de transporte para levar os grãos de regiões produtoras aos portos. Uma segunda fonte do setor disse que fiscais vêm inspecionando fisicamente cada navio destinado à China e montando amostras direcionadas na hora da inspeção, diferentes de amostras padrão feitas por empresas supervisoras. Quando encontram alguma semente diferente da de soja, enviam a amostra para análise. Pelo fato de o governo brasileiro estar adotando tolerância zero, uma única semente que não seja de soja em uma amostra de 50 quilos já implica em laudo positivo de sementes estranhas e faz com que o fiscal não emita o certificado fitossanitário necessário para que a carga possa ser desembarcada na China. Com isso, já são cerca de 20 navios aguardando análise do Ministério da Agricultura, dos quais oito tiveram laudo positivo para sementes que não soja. Sousa, da Cargill, chegou a dizer que alguns navios que já tinham como destino a China estão tendo de ser levados para outros lugares. Conforme o executivo, o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, estaria avaliando a situação com entidades representativas dos exportadores e processadores, a Anec e a Abiove, e buscando um acordo sobre como fazer a amostra e a classificação da soja. A fonte do setor pontuou que não se trata, neste caso, de mistura com sementes tratadas com defensivos, o que seria ilegal. A fonte também disse que o ministério não tem aceitado pedidos de reconsideração para os navios, o que tem levado as tradings a realocarem muitas embarcações. O impasse vem gerando problemas não só para a Cargill, mas para todas as tradings e em todos os portos do Brasil que escoam soja para o exterior, segundo uma das fontes. Também levou as grandes tradings de grãos do setor a reduzirem compras de soja nesta semana. Até quarta-feira, o volume comercializado girava entre 700 mil toneladas e 1 milhão de toneladas, conforme a fonte, muito abaixo das 6 milhões de toneladas negociadas em toda a semana passada. Se o ritmo de negociação for mantido, volume vendido nesta semana não deve passar de 1,5 milhão de toneladas, disse a fonte. A alta do petróleo nesta semana e incertezas quanto aos custos do frete também podem ter influenciado os negócios, disse a fonte.