Páscoa: entenda por que os ovos de chocolate estão mais caros

Basta uma ida ao supermercado para se deparar com as gôndolas de ovos de Páscoa e constatar que o preço do produto está mais caro. Mas o chocolate já estav...

Páscoa: entenda por que os ovos de chocolate estão mais caros
Páscoa: entenda por que os ovos de chocolate estão mais caros (Foto: Reprodução)

Basta uma ida ao supermercado para se deparar com as gôndolas de ovos de Páscoa e constatar que o preço do produto está mais caro. Mas o chocolate já estava pesando mais no bolso do consumidor antes da proximidade dessa data. “Antes mesmo do efeito Páscoa, o chocolate já vinha encarecendo forte no Brasil. Isso revela que o problema é estrutural, envolvendo matéria-prima, energia, frete e embalagens”, explica o professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), Ahmed El Khatib. De acordo com dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo IBGE, chocolate em barra e bombom acumulam alta de 24,77% em 12 meses até janeiro de 2026, bem acima da inflação geral de 4,44%. Khatib enfatiza que mesmo com a queda na cotação internacional do cacau, os preços dos ovos de chocolate continuam pressionados nas prateleiras. Segundo o professor, o aumento não é pontual nem exclusivamente sazonal, mas resultado de um choque global que ainda repercute em toda a cadeia produtiva. Alta nas prateleiras A Fecap destaca que levantamentos comparando os menores preços de 2025 e 2026 em grandes varejistas mostram aumentos expressivos em produtos populares. Um ovo de 277g que custava em média R$ 45, passou a R$ 56,99, alta superior a 26%. Outros itens registraram aumentos entre 16% e 25%. Conforme o professor, o consumidor pode perceber a alta de três formas: aumento nominal do preço, redução da gramatura com preço semelhante ou promoções mais seletivas. “O varejo pode manter preços competitivos em alguns produtos-âncora e compensar elevando margens em versões premium ou licenciadas”, afirma. Ele destaca ainda que o ovo de Páscoa concentra custos adicionais de embalagem especial, marketing e logística refrigerada: “o consumidor não paga apenas pelo chocolate, mas por toda a estrutura sazonal que envolve o produto”. Leia também A galinha põe menos ovos na Quaresma? Descubra se é mito ou verdade Quais os peixes mais consumidos na Quaresma? Como economizar Apesar do cenário desafiador, o professor Khatib, do Fecap, aponta que o consumidor pode adotar estratégias para reduzir o impacto no orçamento. A principal dica é comparar preço por grama, não apenas o valor total do ovo. “Quando um produto mantém a gramatura, mas sobe de R$ 45 para R$ 56,99, o que piora é o custo por unidade de peso. Comparar alternativas como barras e caixas de bombom pode gerar economia relevante”, orienta. Outra estratégia é substituir o formato tradicional sem renunciar ao presente. O especialista comenta que combinar uma barra de chocolate com uma caixa menor e um mimo adicional pode sair mais barato do que um ovo grande, uma vez que o ovo concentra custos de embalagem e sazonalidade. Pesquisar em diferentes canais, como supermercados, atacarejos e e-commerce, também pode fazer diferença, já que a dispersão de preços tende a aumentar em anos de alta. O professor recomenda planejamento e definição prévia de orçamento. “Em um cenário de preços elevados, planejamento deixa de ser apenas uma boa prática e passa a ser uma necessidade financeira. A última semana antes da Páscoa costuma ser ‘emocionalmente mais cara’”, avalia. O professor pondera que há expectativa de um possível superávit global de cacau até o fim de 2026. Se isso se confirmar, parte do alívio pode chegar ao consumidor ao longo de 2027 - mas sem retorno aos patamares anteriores ao choque. “Mesmo com superávit, dificilmente veremos uma volta aos preços antigos. Há rigidez para baixo no varejo e outros custos continuam elevados”, afirma. Dicas para economizar nesta Páscoa Comparar preço por grama, não apenas o valor total do ovo de chocolate; Substituir o formato tradicional sem renunciar ao presente: combinar uma barra de chocolate com uma caixa menor e um mimo adicional; Pesquisar em diferentes canais, como supermercados, atacarejos e e-commerce; Fazer um planejamento e definição prévia de orçamento: evitar a última semana antes da Páscoa, que costuma ser mais cara. Fonte: Professor Ahmed El Khatib, Fecap Indústria democrática Apesar dos preços mais altos, a indústria alega que a Páscoa é um momento de democratizar o acesso aos produtos. “A indústria de chocolate atua com uma perspectiva de inclusão, com portfólio variado e produtos que atendem a todos os públicos”, afirma Luís Oliveira, diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab). Dessa maneira, ele menciona que o setor disponibiliza de produtos mais caros aos mais baratos, além de estimular a inovação frequente. Oliveira comenta que o preço do chocolate vem apresentando volatilidade nos últimos três anos e que isso se deve a vários fatores, entre eles questões climáticas e mercado internacional do cacau. “Mas a condição da produtividade do cacau brasileiro, que é estável e baixa, resulta em escassez de matéria-prima e torna o Brasil dependente da importação. E isso não tem trazido uma acomodação no mercado da commodity, o que impacta a cadeia”, explica. Ele acrescenta que a indústria tem feito um esforço para o desenvolvimento da cacauicultura, a fim de tornar o país autossuficiente na produção de cacau e criar estabilidade de commodity. “O cenário é muito desafiador, porque a cultura é baseada em pequenos produtores. É uma meta a médio e longo prazos e só haverá acomodação de preço quando o setor do cacau tiver esse nível de desenvolvimento no país. Enquanto a commodity for elemento de instabilidade e pressão, trará oscilações, considera. Páscoa X cacau Porém, o executivo chama a atenção para o fato de que não há sincronismo entre a compra do cacau e o impacto do preço no chocolate que chega ao consumidor. “A indústria trabalha com compra antecipada e estoque de matéria-prima, por isso, esse movimento da cadeia muitas vezes não resulta no preço final do produto. A Páscoa atual não reflete o preço do cacau hoje”, salienta. Ele pontua que o preço dos chocolates deve ficar em média entre 10% a 15% superior neste ano, em relação à Páscoa do ano passado. Mas ressalta que a diversificação do portfólio pode alterar esses percentuais. A Abicab levantou que o chocolate ao leite é o preferido de 60% dos consumidores brasileiros, além de constatar uma conexão maior com os produtos que misturam o chocolate com biscoito, waffer e amendoim. A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) informou que irá divulgar no fim deste mês a projeção do consumo durante o período da Páscoa. A pesquisa inclui variação de preços dos itens sazonais, como ovos de chocolate e produtos relacionados. Initial plugin text Demanda restrita Para Ana Carolina Ferreira França, analista de inteligência de mercado da Hedgepoint, a demanda pelos derivados do cacau deve seguir restrita nesta Páscoa, pois, segundo ela, mesmo com as correções nos valores da amêndoa nos últimos meses, a indústria adquiriu o cacau ainda a preços elevados. “Além disso, devido a esse aumento no custo da matéria-prima, a indústria foi obrigada a fazer adaptações em seus produtos, como reduzir o volume das embalagens e também substituição das fórmulas, como de manteiga de cacau por outro tipo de gordura vegetal. Ela não desfaz tão rapidamente essa estratégia, então essa mudança na ponta final da cadeia não será sentida neste momento”, disse. Ainda de acordo com a analista, devido à crise na oferta que levou os preços do cacau a um recorde, também é cedo para afirmar que uma correção nos produtos da Páscoa vai mesmo acontecer em 2027. “Temos previsão de um novo superávit em 2026/27, mas o tamanho desse saldo ainda é incerto. Como as processadoras de cacau tiveram problemas com as margens nos últimos anos, pode ser que ela não veja esse impacto em seu caixa na próxima temporada. Assim, é preciso mais tempo para ver reduções de preço mais intensas pela indústria, que continua comprando caro e fazendo adaptações.”, destaca.