Pecuaristas focam em tecnologia e gestão para sustentar liderança brasileira na carne bovina

A estrada de chão que leva ao Confinamento Pirapó, em Sorriso (MT), é rodeada por grandes lavouras de grãos. Em meados de fevereiro, quando a Globo Rural es...

Pecuaristas focam em tecnologia e gestão para sustentar liderança brasileira na carne bovina
Pecuaristas focam em tecnologia e gestão para sustentar liderança brasileira na carne bovina (Foto: Reprodução)

A estrada de chão que leva ao Confinamento Pirapó, em Sorriso (MT), é rodeada por grandes lavouras de grãos. Em meados de fevereiro, quando a Globo Rural esteve na região, os produtores já tinham colhido a soja e haviam começado a plantar milho. “Estamos andando junto com a agricultura, então, temos que achar uma forma de ser competitivos como eles”, resume o pecuarista Camilo Nicolau, de 40 anos, que, com dois sócios, arrenda uma área dentro da fazenda para criar gado. Gigante da carne: pecuaristas ajudam a sustentar liderança brasileira Assim como tantos outros pecuaristas que fizeram sucesso em Mato Grosso, Nicolau é filho do interior de São Paulo. Nascido em Marília, ele conviveu com a pecuária na infância, acompanhando o trabalho da família na atividade. Formado em administração de empresas, o produtor atuou por dez anos em uma indústria de máquinas agrícolas, período em que a lembrança da criação de gado foi ficando mais viva. Isso fez crescer nele a vontade de começar um projeto do zero que seguisse os preceitos da pecuária sustentável, tanto do ponto de vista ambiental quanto no aspecto financeiro. A mudança para Mato Grosso ocorreu no início de 2017. O tino empreendedor, as preocupações com a sustentabilidade da produção e a visão empresarial da atividade – que se materializa, por exemplo, em investimentos em tecnologia para ganho de eficiência e compreensão das dinâmicas do mercado internacional – são algumas das características mais marcantes da atual geração de pecuaristas – da qual Camilo Nicolau faz parte. Esse perfil está por trás de um feito inédito: em 2025, o Brasil superou os Estados Unidos e tornou-se, pela primeira vez, o maior produtor de carne bovina do mundo. O Departamento de Agricultura americano (USDA, na sigla em inglês) ratificou a liderança brasileira ao estimar, em dezembro, que o Brasil encerraria o ano com uma produção de 12,4 milhões de toneladas, e os EUA, com 11,8 milhões. Os americanos lideravam o ranking global desde que o USDA começou a elaborar as estatísticas, nos anos 1960. Pecuarista Camilo Nicolau (de camisa branca) e sua equipe, em Sorriso (MT) Thiago de Jesus As ferramentas que o pecuarista Camilo Nicolau usa para ganhar competitividade incluem muita adubação, animais com boa procedência e ração de qualidade. No quesito nutrição animal, a propósito, estar em Sorriso, conhecida como a Capital Nacional da Soja, é um diferencial estratégico. Trata-se de uma região “terminadora”, segundo Nicolau. Isso significa que os animais que estão ali normalmente saíram de regiões de pouca produção agrícola, onde estão as fazendas de cria. “É melhor eu dar comida para esse animal aqui mais próximo, e daqui destinar ao abate, do que engordar esse boi mais longe dos centros consumidores”, explica o produtor. Pecuarista de nelore e angus, entre outras raças, Nicolau trabalha com recria. Em geral, ele compra os bezerros com peso de 7 arrobas (o equivalente a 105 quilos), aos oito meses de idade. Durante o período de águas, que vai de outubro a abril, o gado fica no pastejo rotacionado. Quando o capim começa a perder força, entre abril e maio, o criador reduz a lotação desses pastos e envia os animais para o confinamento, onde eles chegam com idades entre 18 e 20 meses e ficam mais três ou quatro meses. De lá, aos 24 meses, o gado segue para o abate em frigoríficos da região. “É bem menos que o boi China”, afirma o pecuarista, em referência ao limite de 30 meses exigido pelo maior importador da carne bovina brasileira. “Tem que ser uma pecuária que cuide da terra. Assim, além de colher mais capim, você vai entregar uma área boa para a agricultura” – Camilo Nicolau, pecuarista em Sorriso (MT) Essas práticas eram incomuns até o início deste século. Em 2005, havia 3 milhões de cabeças de gado em sistema de confinamento, segundo a edição mais recente do anuário da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) sobre a pecuária nacional. O contingente triplicou em duas décadas, chegando a 9,2 milhões de cabeças, de acordo com o Censo de Confinamento, da multinacional dsm-firmenich, de saúde e nutrição animal. Com os investimentos em tecnologia e melhoria de processos, a produtividade da pecuária brasileira cresceu mais de 70% em um intervalo de 20 anos: em 2004, a lotação média era de 2,8 cabeças de gado por hectare e, em 2024, de mais de cinco cabeças por hectare, segundo a Abiec. Esses esforços permitiram ao segmento conquistar a liderança global mesmo com o encolhimento das pastagens – a criação de gado ocupava 160 milhões de hectares em 2024, uma área 11% menor do que a de duas décadas antes. O projeto de pecuária de Nicolau ocupa 600 hectares. A estrutura abriga cerca de 5.000 animais em pastejo rotacionado e tem ainda confinamento para terminação de garrotes, com capacidade estática de 15.000 animais. No ano passado, a fazenda comercializou 31.000 bovinos. Nicolau rastreia todos os animais, um trabalho que atesta idade, procedência e manejo do rebanho. O pecuarista faz parte do movimento Carne do Futuro, que promove a qualidade e a sustentabilidade na produção – e um dos pilares é, justamente, a rastreabilidade da cadeia. Dos insumos necessários para a recria, a nutrição foi o item que mais evoluiu nos últimos anos, avalia o pecuarista, o que tornou possível a intensificação da atividade. O DDG, sigla em inglês para grãos secos de destilaria – um alimento rico em proteína e energia, que, na região, sai das usinas de etanol de milho – é um exemplo. “O maior problema era que, quando chegava a seca, aquele animal virava uma ‘sanfona’. A nutrição entrou, principalmente na seca, para ajudar esse animal a não perder o peso que tinha ganhado”, diz. Nutrição de qualidade é um dos principais diferenciais de competitividade da pecuária moderna Ricardo Benichio A propriedade faz integração lavoura-pecuária (ILP), o que exige um cuidado especial com a adubação, uma vez que o sistema prevê o redirecionamento dessas para a agricultura. A estratégia inclui, além disso, práticas de bem-estar animal, como o uso de bandeiras para o manejo e orientações a fim de evitar gritos direcionados ao gado, o que não só atende a exigências de grandes mercados compradores, como se reflete em ganho de produtividade. “Os cuidados com os animais vão do momento em que chegam, quando eles têm um tempo de descanso, até o embarque, e priorizam um manejo racional, com utilização de produtos específicos para cada enfermidade. Tudo isso dá condições ao animal de expressar todo o seu potencial de ganho (de peso) no confinamento”, afirma João Carlos Magrinelli, médico-veterinário que presta serviço para essa e outras fazendas da região. Busca por eficiência Com 32 milhões de cabeças, Mato Grosso tem hoje o maior rebanho de gado bovino do país, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Estamos em uma região muito interessante para engordar e também para vender boi. Em um raio de 500 quilômetros, dá para contar de dez a 15 plantas frigoríficas, que abatem de 500 a 700 cabeças por dia”, observa Ricardo Pichioni Martins, sócio-administrador e zootecnista da Fazenda Beira Rio, do Grupo Machado. Leia mais: Preço do boi gordo cai em várias regiões pecuárias Cautela com a guerra no Oriente Médio afeta o preço do boi gordo A propriedade fica a apenas 20 minutos do centro de Sinop, conhecida informalmente como a Capital do Nortão de Mato Grosso. A agricultura é a principal atividade econômica do município, o que significa que, para ser relevante, a pecuária não tem outra alternativa a não ser a busca por eficiência. E Martins entendeu isso. Pelo nível de nutrição que a gente aplica e o tanto de arroba que produzimos, esta fazenda está pau a pau com uma boa de lavoura, diz o pecuarista de 42 anos, natural de Álvares Machado (SP). A propriedade fica perto de esmagadoras de soja e usinas de etanol, o que facilita o acesso ao DDG. A trajetória do Brasil como o maior produtor e o maior exportador mundial de carne bovina Studio de criação A trajetória do Brasil como o maior produtor e o maior exportador mundial de carne bovina Estúdio de criação O grupo atua com cria e recria em outras fazendas, mas, na Beira Rio, que tem área de 1.400 hectares, o trabalho é exclusivamente com terminação. Cerca de 3.500 animais seguem para abate por ano, a maioria da raça nelore. A engorda na propriedade ocorre em um modelo de semiconfinamento e também de terminação intensiva a pasto (TIP). Hoje, a lotação é de cerca de 100 cabeças por pasto de 30 hectares, mas os donos planejam dividir essas áreas em duas e colocar 100 animais em cada parte. O modelo de engorda faz uso de caixas de autoconsumo, e o gado come a ração armazenada em quatro dias. Martins afirma não ter tido vontade de trocar a pecuária pela plantação mesmo nos anos de pico de rentabilidade da soja. É coisa “de vocação”, segundo ele. Mas isso não o impede de ver alguns senões na atividade, como os inúmeros fatores que acabam limitando a lucratividade. “Nossa arroba hoje está em torno de US$ 60. Nos Estados Unidos, é coisa de US$ 110. Somos de fato o maior produtor de carne bovina do mundo, mas um produtor que é pouco remunerado pelo que está produzindo”, avalia. Para ele, o principal fator de preocupação é a incerteza sobre o preço da venda. “É muito volátil. Uma notícia, em um dia, tira R$ 10, R$ 20 da arroba, que é a rentabilidade do negócio”, diz. Mas, em uma análise de mais longo prazo, sem os ocasionais altos e baixos das cotações do momento, não há dúvida de que a pecuária brasileira também conseguiu avançar em frentes em que era coadjuvante. O crescimento das exportações é o caso mais eloquente – e também o principal motor dos avanços do segmento no país neste século. Em 2025, mesmo com o tarifaço americano, que encareceu uma série de produtos que o Brasil vende aos EUA, entre eles a carne bovina, as exportações brasileiras foram recordes: o volume cresceu 20,9%, para 3,5 milhões de toneladas, e a receita dos embarques aumentou 40,1%, somando US$ 18 bilhões. O Brasil, líder global, responde por 1 em cada 5 quilos de carne bovina exportada no mundo. É um contraste com o papel de figuração que o país ocupava até não muito tempo atrás: em 2000, o Brasil era apenas o quinto maior exportador, com 7,5% do total dos embarques, segundo o USDA; e, em 1995, sequer aparecia entre os cinco mais importantes. Na fazenda Beira Rio, em Sinop (MT), Ricardo Martins, prepara por ano cerca de 3.500 animais para o abate Thiago de Jesus Os maiores exportadores Nos últimos anos, o Pará foi o estado brasileiro em que a pecuária mais cresceu. O rebanho paraense, que era de apenas 1,5 milhão de cabeças há 50 anos, hoje tem 25 milhões de animais, o que faz dele o segundo maior do país. Os paraenses já são, além disso, os maiores exportadores de gado vivo do Brasil. Para a pecuária, o Pará é hoje o que o Cerrado foi há 30 anos: um polo com terra mais barata e um grande potencial de produção, resume o professor Júlio Barcellos, coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva da Carne (Nespro), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Por outro lado, o estado, que abriga mais de 25% da floresta amazônica brasileira, ainda tem que superar limitações de ordem regulatória, dificuldades logísticas e baixa capacidade de abate, segundo Barcellos. Recentemente, o governador Helder Barbalho assinou um decreto que prorroga o prazo para a rastreabilidade obrigatória do rebanho entrar em vigor. O prazo para a identificação compulsória dos animais vai até 31 de dezembro de 2030. Na versão inicial do programa, a regra passaria a valer em janeiro de 2027. Para a pecuária, o Pará é hoje o que o Cerrado foi há 30 anos: um lugar de terra mais barata e grande potencial de produção – Júlio Barcellos, coordenador do Nespro/UFRGS Costa é uma referência nacional em pecuária sustentável. A área de sua propriedade, em Paragominas, na região norte do Estado, a 290 quilômetros de Belém, é de 4.300 hectares, mas a produção ocorre em 880 hectares, sendo 520 hectares de pecuária e 360 de cultivo de grãos. A fatia da área de produção, de 18,6%, é até menor do que a lei exige – no bioma amazônico, imóveis localizados em área de florestas têm que ter reserva legal de 80% da área –, e Costa adotou essa prática mesmo antes de o Código Florestal entrar em vigor, em 2012. “A maior riqueza das florestas é a biodiversidade. Se eu mostro que estou trabalhando diferente aqui, que o meu impacto é menor, que a minha carne tem um nível de biodiversidade maior, eu preciso ‘vender’ isso”, afirma ele, um defensor da rastreabilidade. Atualmente, o estoque médio do pecuarista é de 2.600 cabeças. Ele compra animais que tenham entre oito e 12 meses de idade e os encaminha para o abate 12 meses depois, quando pesam, em média, 18,5 arrobas. “Meu foco maior é capim. Trabalho para colocar 300 quilos em um animal em 12 meses. Alguns entram em confinamento por 90 dias, outros, não”, relata. Gado bovino em Mato Grosso: com 32 milhões de cabeças, o estado tem o maior maior rebanho da pecuária no páis Thiago de Jesus Leia mais: Setor de carne bovina espera avanço em negociações com Japão e Coreia Exportações de carne bovina bateram recorde em fevereiro Eficiência no pasto A cor rosa cobre até mesmo os tratores e cercas da propriedade da engenheira civil e pecuarista Christiane Morais em Barretos (SP). Essa megapaixão pelo rosa, como ela define, é um detalhe estético que não ofusca uma conquista de relevo da Aerorancho: em oito anos, a lotação média da fazenda passou de meio animal por hectare para oito unidades por hectare. Mais conhecida como Chris Morais, a produtora, de 47 anos, instalou a propriedade há 14 anos. Ela faz recria e terminação de gado de corte na fazenda, de 34 hectares, e o salto de produtividade ocorreu a partir da criação do projeto Mega Lavoura de Arroba. A transformação, conta a pecuarista – que nasceu e cresceu em fazenda, estudou na Suíça, já visitou mais de 100 países e, além de boi, também monta cavalos da raça brasileiro-de-hipismo (BH) – começou com uma parceria com a cooperativa Coopercitrus, que faz a análise de solo georreferenciada em cada pasto do rancho. O pessoal vem com quadriciclos para fazer a análise de solo de cada piquete. Com isso, melhoramos a comida para a planta que alimenta os animais, explica. “Após fechar um ano no vermelho, comprei um vagão misturador que carrega, mistura e lança a ração reforçada para uso na terminação. O resultado dessas mudanças, conta, foi uma economia anual de 30% na aplicação de calcário no pasto e de 20% no uso de fertilizantes, além, é claro, do aumento substancial da lotação por hectare. O Aerorancho, que fica na cabeceira da pista do aeroporto de Barretos, recebe, por ano, 100 bezerros nelore machos inteiros, com idade a partir de oito meses. Com intensificação a pasto, os bois gordos saem da propriedade direto para o Frigorífico Minerva, com direito a um bônus de R$ 60 por animal pelo couro, que é exportado para a Europa. “Eu só compro bezerro com CAR (Cadastro Ambiental Rural), após aprovação da certificadora. Nosso foco aqui é produzir carne para exportação. A gente consegue entregar para o frigorífico quilos de carcaça multicertificada com sustentabilidade ambiental e social e rastreabilidade, uma produção que é exportada para todos os mercados. No caso da Europa, os animais necessariamente têm que ter de zero a dois dentes, ou seja, são de abate precoce”, afirma. Na visita que fez ao Aerorancho, a Globo Rural acompanhou de dentro do pasto a troca de piquete do gado, um trabalho que Chris, sempre a cavalo, conduziu com seus dois funcionários, Allan e Duran Santos, que são pai e filho. Além de um pasto verde, bem formado e alto, resultado de nutrição e muitos dias de chuva em janeiro e fevereiro, o gado criado com foco no bem-estar animal é dócil e tem à disposição ração e água de boa qualidade. Nenhum animal de produção entra na floresta, e eles só bebem água de cochos. Meu avô pecuarista já dizia isto: o gado não pode gastar energia para buscar água. Ou seja, não adianta ter um pasto maravilhoso sem água de qualidade por perto. A pecuarista, que acumula prêmios por seu trabalho no agro, abriu seu rancho no ano passado para mostrar o trabalho de recuperação de nascentes, que ela considera vital para as próximas gerações. A propriedade tem 35% da área de floresta preservada. Além da sustentabilidade ambiental, que inclui reforma e reciclagem dos tratores usados na fazenda, Chris observa que é fundamental praticar a sustentabilidade econômica. A medição do sucesso de um produtor rural não se faz pelo tamanho da propriedade, mas por sua capacidade de conversão. O pecuarista precisa sempre controlar rigidamente o centro de custos. Sem planejamento financeiro, as contas não fecham, diz. Neste ano, há incertezas sobre a renda na pecuária, em razão da mudança de ciclo e das salvaguardas da China. Ainda assim, a produtora afirma não estar preocupada: as pessoas precisam comer, ela raciocina, e o mundo necessita da carne bovina brasileira. Pecuarista Cris Moares, de Barretos (SP): a cor é a marca registrada da produtora, que aumentou de 0,5 para oito a lotação média por hectare Ricardo Benichio Uma leitura otimista Uma leitura igualmente otimista é a do pecuarista Renato Pontes, de 45 anos, diretor da Pontes Pecuária, grupo que tem 70.000 cabeças de gado, distribuídas por quatro fazendas, localizadas em Pernambuco, Maranhão e Pará, em uma área total de 75.000 hectares. Ele acredita que as vendas não vão diminuir neste ano, projetando, em vez disso, um novo recorde, já que, segundo ele, o mercado externo está muito aquecido. O mundo passa por uma virada de ciclo em que a oferta de carne globalmente está menor. A salvaguarda chinesa só deve interferir na narrativa, e não na prática, porque a carne brasileira tem qualidade e custa menos do que a dos concorrentes”, opina. Para ele, a produção nacional vai ser menor do que a de 2025, “mas os vasos comunicantes do mercado internacional são muito dinâmicos e rápidos”, prossegue. Tanto que, quando os Estados Unidos impuseram as tarifas no ano passado, rapidamente o México começou a importar carne brasileira, lembra. Pontes é administrador de empresas e tem mestrado em zootecnia, um perfil técnico por excelência, o que é outro dos elementos da transformação que a pecuária brasileira viveu desde o início do século. Initial plugin text No Brasil, historicamente, a adesão a novos conhecimentos, tecnologias e modelos de produção e gestão tem ocorrido sempre com muito mais rapidez na agricultura do que na pecuária, uma atividade que trilhou outro caminho em sua trajetória de evolução. Mais do que ocorreu na agricultura, que, a depender da cultura, segue calendários com poucos meses de duração, a criação de animais foi, também, uma espécie de seguro contra a alta inflação no país. Os animais no pasto assegurariam a posse da terra e cumpririam também um papel de investimento de baixo risco, segundo análise do consultor Ivan Wedekin no livro Economia do Gado Bovino: Conceitos e Ciclo de Preços (2017). “A perspectiva econômica histórica desse sistema (pecuária) traz o desenvolvimento de uma atividade baseada na expansão da terra e na valorização dos ativos devido à inflação, uso de sistemas tradicionais (terra, capital e emprego), levando a uma baixa produtividade e a um sistema alimentar de baixa segurança até o fim dos anos 1990”, escreveu o consultor, ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura. Animais de rebanho nelore com brinco de identificação: a rastreabilidade é uma exigência crescente e um diferencial competitivo Ricardo Benichio O controle da inflação, a partir do lançamento do Plano Real, em 1994, e a crescente demanda no exterior por proteínas de origem animal criaram um ambiente que estimulou os investimentos na pecuária brasileira. “Melhorias tecnológicas em nutrição, aspectos sanitários e genéticos têm substituído esse sistema tradicional por outros eficientes e sustentáveis”, anotou Wedekin na obra. A idade média de abate do gado é uma das evidências concretas dessa transformação. No fim dos anos 1990, o número de bois abatidos com mais de 36 meses de idade era de quase 70% do total de animais no país, de acordo com a Abiec. Eram bovinos que ficavam mais tempo no pasto, invariavelmente em sistemas de criação extensiva. Em 2024, a fatia já era de apenas 11,1%. Na linguagem dos negócios, o ativo passou a girar com mais rapidez. Ciclo completo As atividades da Pontes Pecuária começaram há 50 anos, quando o avô de Renato, Guilherme Pontes, instalou-se na região norte do país, atraído pelos programas federais de ocupação de terras. O grupo faz o chamado ciclo completo: as fazendas de cria e recria ficam no Maranhão e em Pernambuco, e a terminação ocorre no Pará. A Pontes começou no modelo de pecuária extensiva, passou para a semi-intensiva e, desde o ano passado, também tem utilizado o confinamento. A criação de ao menos 30% dos animais que vão para abate ocorre em fazendas do grupo, que trabalha com gado nelore e cruzamento industrial com angus. Segundo Renato, 95% da produção é padrão exportação, com animais abatidos antes de 30 meses. “Nosso principal produto é o boi China, que exige abate precoce, e isso nos fez intensificar a produção. Hoje, produzimos mais na mesma área e mandamos para o mercado uma carne produzida com sustentabilidade”, diz o produtor. Segundo ele, há 20 anos, a lotação média ficava entre 0,6 e 0,7 animal por hectare. Hoje, a média fica em 3,5 cabeças por hectare. A melhora do índice de lotação é também um indicador de sustentabilidade, e o grupo tem outros a apresentar. As áreas de preservação de mata primária nas fazendas, por exemplo, somam mais de 38.000 hectares. Em outra frente, há quatro anos o grupo começou a fazer aplicações preventivas de insumos biológicos para o controle da cigarrinha-das-pastagens. Hoje, a empresa não tem mais problemas com o inseto. O grupo investe ainda em melhoramento genético, adotou a integração lavoura-pecuária em uma das fazendas, planta milho para a alimentação do gado, atua no mercado de grãos — vendendo a soja para troca por farelo — e mantém fábrica própria de ração. “Pecuarista tem que se reinventar todo dia, buscar informação para tomar suas decisões e abrir a cabeça”, afirma Renato. A pecuarista Fernanda Costabeber, da Fazenda Pulquéria, de São Sepé(RS): manejo dos animais soltos e com ração à vontade Divulgação Fazenda Pulquéria Na Fazenda Pulquéria, em São Sepé (RS), município a 260 quilômetros de Porto Alegre, a família Costabeber também segue os preceitos de sustentabilidade ambiental e financeira em suas atividades de recria e terminação. Dos 1.800 hectares da propriedade, 22% são de mata fechada. O rebanho tem 1.100 machos, metade deles castrados, e a criação destina-se à produção de carne premium com raças britânicas. Fernanda Costabeber, de 34 anos, veterinária e pecuarista de terceira geração que administra a propriedade com o pai, Fernando, acredita que o ano de 2026 vai ser positivo para a pecuária brasileira. Haverá dificuldade na reposição dos bezerros, é verdade, mas, por outro lado, o quadro indica aumento de preços e boa oferta de grãos para a ração. No mundo, continua a pecuarista, há uma crescente valorização da proteína bovina de qualidade, o que pode beneficiar o Brasil. Ela conta que a família decidiu reestruturar a fazenda há 20 anos. Em lugar da integração lavoura-pecuária, o foco passou a ser exclusivamente a pecuária, um movimento que mudou, também, o acompanhamento das flutuações do mercado. Quando faltava gado na praça, a cotação subia, e os Costabeber vendiam os animais; em caso de queda de preços, eles compravam. Essa estratégia, conta, dobrou o tempo de permanência do gado nas pastagens de inverno, o que potencializou a produção e acentuou o ganho de peso. A pecuarista afirma que a opção pelo confinamento seria possivelmente mais rentável, mas a família preferiu manter o sistema de produção green lot, em que os animais ficam soltos e com ração à vontade. O foco é no bem-estar animal e na sustentabilidade, visando reduzir as emissões de gases de efeito estufa na fase final de engorda. Os terneiros chegam à propriedade quanto têm entre nove meses e um ano de idade e permanecem na Pulquéria por 12 meses. Os piquetes, que têm de a 20 hectares de área, foram divididos de acordo com a disponibilidade de água e sombra para os animais. Com selo Angus Sustentabilidade e certificação de bem-estar animal, a produção da Pulquéria tem a União Europeia como principal destino. O investimento em tecnologia, relata Fernanda, é constante, mas não mirabolante. A família rastreia todos os animais, acompanhando índices de ganho de peso, controle sanitário e controle de origem. A partir de março, uma empresa uruguaia deve começar a pesar o gado da fazenda com drone, uma tecnologia recente na pecuária e que permite fazer esse trabalho sem que seja preciso levar os animais para a mangueira. Elementos da liderança A inédita liderança brasileira no ranking mundial de produção de carne bovina foi consequência da evolução da própria atividade no país, como exemplificam os produtores desta reportagem, mas houve outros elementos nessa mudança. Na lista aparecem, por exemplo, problemas climáticos e conjunturais em alguns dos principais concorrentes do Brasil e aumento dos abates no país em um momento em que, com a queda dos preços das commodities agrícolas, muitos produtores precisaram fazer crédito com a pecuária. Isso é circunstancial, porque todo esse excesso de abate de 2025 faltará em 2026. E essa projeção de abate menor em 2026 deve reduzir a produção de carne, avalia o professor Júlio Barcellos, do Nespro/UFRGS; Na avaliação do especialista, o aumento de consumo em alguns países, em especial no Oriente Médio e na África, criará um desequilíbrio entre oferta e demanda, o que indica aumento de preços superior – e isto tende a fazer com que o pecuarista venda menos gado em 2026. A retenção de fêmeas deve crescer neste ano, e isso é outro emento que será diferente do quadro de 2025. A expectativa para este ano é de retenção de fêmeas. O mercado já está sentindo isso, e o termômetro é a cotação dos bovinos de reposição, que vem subindo desde o último trimestre do ano passado, afirma o analista Alcides Torres, presidente-executivo (CEO) da Scot Consultoria. Na última semana de fevereiro, o valor médio da arroba no Estado de São Paulo era de R$ 350. No início de janeiro, a cotação era de R$ 319. Para o pesquisador Guilherme Malafaia, da Embrapa Gado de Corte, após um ano de recordes, a recomposição de plantel tende a reduzir o volume de carne disponível no Brasil e mudar a distribuição de margens na cadeia. Isso poderá favorecer os sistemas de cria e pressionar as operações que dependem da reposição. “Será necessário ter capital de giro. Em contraste, a pressão sobre os custos de nutrição deve ser menor, porque a safra de grãos vai ser robusta”, diz. O agrônomo Maurício Palma Nogueira, diretor da Athenagro Consultoria, por outro lado, acredita que produção de carne em 2026 ficará estável ou até crescerá um pouco. Nogueira, que desde 2004 organiza o Rally da Pecuária, expedição de técnicos que roda anualmente pelas principais regiões produtoras de carne bovina do país, comenta que o abate de fêmeas pode continuar em 2026 sem prejuízo do rebanho, graças aos ganhos de produtividade da pecuária brasileira nos últimos anos. O quadro da pecuária em 2026, de fato, não será idêntico ao de 2025 – e é possível, sim, que o Brasil não sustente a liderança mundial na produção de carne bovina. Mas posições de ranking são fenômenos circunstanciais. O que é definitivo é a mudança do perfil da pecuária brasileira. Essa veio para ficar. Exportações em 2026 Em 2025, o Brasil exportou carne bovina para 177 países, e a China foi, mais uma vez, o principal comprador, com 1,68 milhão de toneladas. Porém, no fim do ano passado, os chineses anunciaram a decisão de instituir um regime de salvaguardas. Com esse instrumento, previsto nas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), os países protegem seu mercado interno, por prazo limitado, contra eventuais choques de oferta decorrentes de aumento da produção local e também das importações. Sob a medida, em 2026, o Brasil poderá exportar até 1,1 milhão de toneladas de carne bovina ao mercado chinês com tarifa reduzida. Com a vigência da salvaguarda, a indústria afirma que a tendência é que as exportações brasileiras não cresçam neste ano. O setor vem de dois anos muito positivos, e, mesmo com variáveis importantes no ambiente internacional, nossa projeção é de que as exportações fiquem entre 3,3 milhões e 3,5 milhões de toneladas. O desempenho vai depender do comportamento de mercados como China e Estados Unidos e da evolução de novas aberturas (de mercado), além das questões geopolíticas, afirma o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa.Entre os possíveis novos mercados, a principal aposta está na Ásia, enquanto a União Europeia é vista como um mercado mais voltado a cortes de maior valor agregado. O segmento acredita que, dado o cenário atual, os preços também devem mudar pouco neste ano. De acordo com o dirigente, os valores da carne já chegaram a reagir em alguns mercados, o que pode compensar uma eventual diminuição de volume dos embarques. A Abiec aposta em estabilidade também na produção, com abate de cerca de 40 milhões de cabeças em 2026.